FOX SPORTS & REDE GLOBO A concorrência com conglomerados
internacionais Por Valério Cruz Brittos e Anderson David Gomes dos
Santos em 31/01/2012 na edição 679 Os canais pagos dedicados aos
esportes ganharão um
concorrente de peso a partir de 5 de fevereiro de 2012.
A Fox Sports, do conglomerado News Corporation, de
Rupert Murdoch, monta base no Rio de Janeiro e
imediatamente passa a transmitir com exclusividade
na TV por assinatura brasileira o principal torneio de futebol do
continente: a Copa Santander Libertadores. Com promessa de cinco
narradores e mais de 70
profissionais em sua estrutura, a Fox Sports ocupará
oficialmente o espaço do Speed, que não está no
pacote básico da TV por assinatura, começando com
um público estimado de 3,5 milhões de espectadores.
Já que a pretensão é exibir todos os jogos do torneio, o canal FX,
também pertencente ao grupo, será utilizado
para transmissões todas as vezes que no mesmo
horário ocorrerem duas partidas. A Fox Sports também obteve o direito
de transmitir
com exclusividade a Copa Bridgestone Sul-Americana
no segundo semestre, retirando os dois campeonatos
da SporTV, empresa ligada às Organizações Globo.
Como os torneios europeus, com destaque para a Liga
dos Campeões da Europa, estão há anos com os canais ESPN (Disney) –
que terá que dividir a transmissão da
Premier League (Campeonato inglês) na temporada
2012-1013 com o novo concorrente no Brasil –, a
SporTV só poderá transmitir jogos de futebol
organizados no país, aproveitando-se dos privilégios
político-institucionais da Rede Globo de Televisão. Exclusividade do
Canal Combate Além disso, apesar de apresentar dificuldades em tirar
profissionais de outras emissoras, inclusive de TV
aberta, a maioria dos contratados anunciados pela Fox
Sports é ex-funcionária das Organizações Globo, casos
do comentarista José Ilan (Globoesporte.com e ex-
repórter da Rede Globo), do repórter Victorino Chermont (SporTV) e dos
narradores João Guilherme e
Marco de Vargas (SporTV). Já o vice-presidente do novo
canal é Eduardo Zebini, que trabalhou por mais de uma
década como diretor de esportes da Rede Record e
participou das primeiras disputas travadas por direitos
de transmissão esportiva, na segunda metade da década passada.
Cogitou-se até que a transmissão da Libertadores em
TV aberta pela Rede Globo ficaria restrita a um jogo por
semana para toda a rede, ao contrário do que tem
acontecido, quando a emissora coloca uma partida
diferente para cada núcleo (São Paulo, Rio de Janeiro,
Rio Grande do Sul e Nordeste). Em nota oficial, nos últimos dias de
2011, a Globo afirmou que transmitirá
os dois jogos com brasileiros na Pré-Libertadores
(Flamengo e Internacional) e, a partir da fase de
grupos, duas partidas por rodada, reafirmando a posse
exclusiva dos direitos de transmissão do torneio em TV
aberta até 2018. A SporTV ganha mais uma concorrente de peso. Além
dos torneios sul-americanos de clubes de futebol, a Fox
Sports já começa com 11 campeonatos de tênis, cerca
de oito competições de automobilismo – dentre elas a
Nascar, principal categoria estadunidense – e um
pacote de lutas. Mesmo com a parceria com o
UltimateFightingChampionship (UFC) nos Estados
Unidos, onde transmitiu o evento pela primeira vez em
TV aberta para todo o território, em novembro de
2011, o canal ainda não se posicionou se tirará a
exclusividade do Canal Combate (pay-per-view do
SporTV) sobre a atração esportiva que mais cresce no Brasil nos
últimos anos. Transmissão esportiva A curiosidade sobre esta disputa é
que se presumia que
existisse um acordo tácito das Organizações Globo com
a News Corp. em que não haveria concorrência por
pacotes de conteúdos até então pertencentes à
empresa brasileira. Afinal, os dois conglomerados
comunicacionais foram parceiros por muito tempo na posse da Sky (hoje
Sky/Directv), na segunda onda
globalizante do audiovisual brasileiro, que tem como
marcas a privatização do setor de telecomunicações e
sua aproximação com empresas tradicionais que
operavam na televisão paga, numa associação entre
oligarcas regionais e grandes empresas globais. Além disso, os canais
Globosat e a Fox são sócios nos
canais Telecine que, dentre outros produtos e serviços,
coproduz filmes com a Globo Filmes e demais
produtoras do país, como são os casos de Assalto ao
Banco Central (Marcos Paulo, 2011) e O Palhaço (Selton
Mello, 2011). Essa mudança de paradigma já é um reflexo das
alterações oriundas da Lei do Audiovisual
(12.485/2010), que exige 30% de produção nacional
nos canais de TV por assinatura e permite maior
participação das grandes empresas mundiais no setor,
especialmente no que concerne à posse de operadoras, agora sem limite
para o capital estrangeiro. Lembra-se
que os grandes conglomerados empresariais atuam
tanto nas telecomunicações quanto na produção e
distribuição do conteúdo. Este caso reflete também a
importância da transmissão esportiva enquanto
mercadoria, a ponto de superar antigas alianças. Filão da TV aberta A
concorrência direta de dois grandes conglomerados,
no que tange aos esportes na TV por assinatura –
representados pelos canais Fox Sports e ESPN –, pode
representar um risco ainda maior para as Organizações
Globo nas próximas negociações dos direitos de
transmissão de campeonatos nacionais de futebol. Isto pode mudar o
estágio atual, de monopólio do direito
de transmitir na maioria das mídias, confirmado, por
exemplo, no último contrato assinado com os clubes
para o Campeonato Brasileiro de Futebol, válido até
2015. Se as barreiras impostas pela Globo na televisão aberta,
por conta de seu padrão tecno-estético e de suas
relações político-institucionais, foram, e ainda são,
difíceis de serem rompidas, elas são bem mais frágeis
na TV paga, onde o confronto envolve organizações
com larga experiência internacional, em termos de produção e
distribuição de audiovisual, com capitais
muito superiores aos dos radiodifusores nacionais. As novas barreiras
que passam a ser construídas pelos
conglomerados globais podem ser intransponíveis para
os tradicionais oligarcas do mercado audiovisual
brasileiro. Por isso a aversão – apresentada já em 2002,
quando da necessidade de se fixar em 30% a
quantidade de capital estrangeiro nas empresas de comunicação mais
tradicionais (TV, rádio e jornal) – em
permitir a entrada desses grupos num filão como o é a
televisão aberta, já que 63% dos recursos publicitários
do mercado nacional vão para este meio de
comunicação.